FGC em 2026: limites, regras novas e como não ficar a descoberto
R$ 250 mil por CPF por conglomerado e teto de R$ 1 milhão a cada 4 anos. O que o FGC cobre, o que não cobre e as regras que o CMN mudou em 2026.
Quando um banco médio entra em liquidação, a conversa sobre o Fundo Garantidor de Créditos sai do nicho e chega no grupo da família em 48 horas. E aí aparecem as duas versões erradas: “o FGC cobre tudo” e “o FGC não paga ninguém”.
Nenhuma das duas. O FGC tem regra escrita, limite numérico e prazo — e saber os três é a diferença entre dormir tranquilo e descobrir no pior momento que metade do seu dinheiro estava fora da proteção.
Este artigo é o manual de uso. Não há recomendação de produto nem de instituição aqui.
O que o FGC é
O Fundo Garantidor de Créditos é uma entidade privada, sem fins lucrativos, mantida com contribuição das próprias instituições financeiras associadas. Ele não é governo e não usa dinheiro do Tesouro: é um seguro coletivo bancado pelo setor.
Quando uma instituição associada sofre intervenção, liquidação extrajudicial ou falência decretada pelo Banco Central, o FGC paga aos credores cobertos até o limite da garantia.
O detalhe que muda tudo: o FGC só entra em cena depois de decretada a liquidação. Banco com problema mas ainda operando não aciona nada. Isso significa que o resgate normal continua sendo o caminho até o momento da decretação — e que não existe “acionar o FGC preventivamente”.
Os dois limites, e por que o segundo é o que pega
Quase todo mundo conhece o primeiro limite e ignora o segundo.
Limite 1 — R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro. Esse valor inclui principal mais rendimento até a data da liquidação.
A palavra decisiva é conglomerado. Instituições do mesmo grupo econômico compartilham o limite de R$ 250 mil, independentemente de você ter chegado nelas por corretoras ou plataformas diferentes. Comprar CDB de dois bancos que pertencem ao mesmo grupo não dobra a proteção — é um limite só.
Limite 2 — R$ 1 milhão por CPF a cada quatro anos, somando todas as instituições. Esse é o teto global. Se você já recebeu R$ 600 mil de garantia por uma liquidação, só restam R$ 400 mil de cobertura para os quatro anos seguintes, em qualquer instituição.
O limite 2 é o que surpreende quem diversifica em muitos bancos médios de uma vez. A diversificação resolve o limite 1 e não resolve o limite 2.
O que entra e o que não entra na garantia
| Coberto pelo FGC | Não coberto |
|---|---|
| Depósito à vista e conta corrente | Fundos de investimento (patrimônio separado) |
| Poupança | Tesouro Direto (garantia é o governo federal) |
| CDB e RDB | Debêntures |
| LCI e LCA | CRI e CRA |
| Letra de câmbio | Ações, ETFs e BDRs |
| Letra hipotecária | Previdência privada (PGBL e VGBL) |
Dois pontos onde quase todo mundo erra:
Fundo de investimento não precisa de FGC e é uma boa notícia, não uma falha. O patrimônio do fundo é separado do da gestora e do banco administrador. Se o banco quebra, as cotas do fundo não vão com ele — elas passam a outro administrador. O risco do fundo é o dos ativos dentro dele, não da instituição.
Tesouro Direto não precisa de FGC porque a contraparte é o Tesouro Nacional. Não existe garantia melhor do que essa no mercado doméstico, e por isso Tesouro Selic é a opção padrão de reserva de emergência.
CRI, CRA e debênture não têm nada. São dívida de empresa ou de securitizadora. Pagam mais justamente por isso. Quem compra CRA achando que é “LCA com taxa melhor” está comprando risco de crédito corporativo sem garantia nenhuma.
As regras novas do CMN em 2026
Em 2026, o Conselho Monetário Nacional aprovou um pacote voltado a limitar o uso excessivo da garantia do FGC como combustível de crescimento agressivo.
O desenho central: instituições que captam muito recurso com proteção do FGC mas carregam ativos de maior risco ou de difícil venda passam a ser obrigadas a aplicar parte desse dinheiro em títulos públicos federais (noticiário oficial da decisão).
O que isso significa na prática para você, investidor pessoa física:
O sistema fica mais sólido. Menos incentivo para banco pequeno captar a 120% do CDI e aplicar em carteira de crédito arriscada.
As taxas mais agressivas tendem a sumir. Aquele CDB de banco pequeno pagando muito acima da média existia em parte por causa desse mecanismo. A margem para isso diminui.
A regra não muda o seu limite. Continuam valendo os R$ 250 mil por conglomerado e o R$ 1 milhão quadrienal. A mudança é de prudência do emissor, não de cobertura do investidor.
O exercício de cinco minutos
Rodrigo, 45 anos, tem R$ 620 mil em renda fixa. Ele achava que estava coberto porque dividiu entre seis instituições diferentes. Fez o exercício e descobriu três problemas.
Onde está Valor Situação da cobertura CDB banco A R$ 180.000 coberto CDB banco B R$ 240.000 coberto, perto do limite LCI banco C R$ 90.000 coberto CDB banco D R$ 60.000 mesmo conglomerado do banco B CRA de agronegócio R$ 30.000 sem cobertura nenhuma Tesouro IPCA+ R$ 20.000 não precisa de FGC Problema 1: banco B e banco D somam R$ 300.000 no mesmo conglomerado. R$ 50.000 estão a descoberto.
Problema 2: o CRA de R$ 30.000 não tem FGC e ele não sabia. Não é erro ter — é erro ter sem saber.
Problema 3: o CDB do banco B, a R$ 240.000, vai ultrapassar o limite pelo próprio rendimento antes do vencimento. A garantia cobre principal mais juros, então o teto é atingido com o papel ainda ativo.
O conserto: realocar R$ 50.000 para uma quarta instituição ou para Tesouro Direto, e combinar aporte novo com o vencimento do CDB do banco B.
O exercício completo são três colunas: onde está, quanto tem, a qual conglomerado pertence. Para descobrir o conglomerado, o caminho é a consulta de instituições no site do Banco Central ou a própria lista de associadas no site do FGC.
Quando isso não se aplica
- Seu patrimônio em renda fixa é bem abaixo de R$ 250 mil numa única instituição. O limite não é o seu problema. O que importa para você é taxa, prazo e liquidez — não arquitetura de garantia.
- Você investe via fundo de investimento ou previdência. O FGC não é a lente certa. O que importa ali é a composição da carteira, a taxa de administração e, na previdência, a solidez da seguradora.
- Você tem conta conjunta. A garantia é do CPF, e em conta conjunta o valor é dividido entre os titulares conforme a regra do fundo. Casal com R$ 400 mil em conta conjunta não tem automaticamente R$ 500 mil de cobertura — vale confirmar a titularidade de cada aplicação.
- Você é investidor via corretora. A corretora é intermediária, não emissora. O CDB que você comprou na corretora é do banco emissor, e é o CNPJ desse banco que conta para o limite. Corretora quebrando não atinge o título, que está custodiado em seu nome.
Em resumo
O FGC é um seguro privado bancado pelos bancos que paga até R$ 250 mil por CPF por instituição ou conglomerado financeiro, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos, e só é acionado depois que o Banco Central decreta liquidação. A palavra conglomerado é a que mais derruba gente: dois bancos do mesmo grupo compartilham um único limite, mesmo compradas por plataformas diferentes. CDB, LCI, LCA e poupança estão cobertos; CRI, CRA e debênture não têm cobertura alguma, e fundos e Tesouro Direto não precisam porque a estrutura de risco é outra. As regras aprovadas pelo CMN em 2026 obrigam instituições que captam muito com garantia do FGC e carregam ativo arriscado a direcionar parte do dinheiro para título público — o que tende a reduzir as taxas mais agressivas do mercado sem alterar o seu limite. E a garantia cobre principal mais rendimento, então um CDB de R$ 240 mil ultrapassa o teto antes de vencer.
Próxima leitura
- Caso Banco Master: o que acontece com o cliente — como a teoria funcionou num caso concreto.
- CDB ou Tesouro Direto: qual escolher primeiro — a decisão de alocação logo depois de entender a garantia.