Marcação a mercado: por que seu Tesouro fica no vermelho
Você comprou Tesouro IPCA+ e o extrato mostra prejuízo. Entenda o que é marcação a mercado, quando o vermelho é real e quando ele some sozinho no vencimento.
Você fez tudo certo. Abriu conta, comprou Tesouro IPCA+ 2035, guardou. Um mês depois abre o extrato e o título aparece valendo menos do que você pagou.
A primeira reação costuma ser “perdi dinheiro na renda fixa?”. A segunda, pior, costuma ser vender.
O que você está vendo se chama marcação a mercado, e entender esse mecanismo é a diferença entre segurar um investimento que vai entregar exatamente o combinado e realizar um prejuízo desnecessário. Esse artigo explica o que é, por que acontece, quando o vermelho é real e quando ele desaparece sozinho.
O que é marcação a mercado
Marcação a mercado é a atualização diária do preço do seu título pelo valor que alguém pagaria por ele hoje.
Não é opinião nem estimativa: é o preço que o Tesouro Nacional pagaria se você quisesse vender antes do vencimento. Por isso ele muda todo dia útil.
Existem, portanto, dois preços possíveis para o mesmo título:
- Preço na curva — o que você contratou. Se você comprou IPCA+ 6,5% ao ano, é isso que o título rende até o vencimento, dia após dia, sem surpresa.
- Preço de mercado — o que o título vale hoje se você vender. Esse oscila.
Se você levar até o vencimento, o preço de mercado é irrelevante. Você recebe o que contratou. Se você vender antes, o preço de mercado é o único que importa.
Por que o preço cai
A mecânica é contraintuitiva mas simples: preço de título e taxa de juros andam em direções opostas.
Imagine que você comprou um título que paga IPCA + 6,5% ao ano. Semanas depois, o Tesouro passa a emitir o mesmo título pagando IPCA + 7,2%.
Quem vai comprar o seu, que paga menos, pelo mesmo preço? Ninguém. Para o seu título ficar competitivo, ele precisa ser vendido mais barato — e é isso que a marcação a mercado registra.
O contrário também vale. Se a taxa de emissão cai para IPCA + 5,8%, o seu título de 6,5% vira o mais atraente da prateleira e o preço dele sobe.
Regra de bolso: juro de mercado sobe → preço do título cai. Juro de mercado cai → preço do título sobe. Sempre.
Qual título sofre mais
Nem todos oscilam igual. O que define a intensidade é o prazo até o vencimento.
| Título | Sensibilidade à marcação | Por quê |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | Quase nula | Acompanha a taxa diária; não há descasamento a corrigir |
| Tesouro Prefixado 2029 | Média | Prazo curto, poucos anos de fluxo a reprecificar |
| Tesouro Prefixado 2033 | Alta | Prazo longo, cada mudança de taxa afeta muitos anos |
| Tesouro IPCA+ 2029 | Média | Prazo médio |
| Tesouro IPCA+ 2045 | Muito alta | Prazo longuíssimo; oscilação de dois dígitos é normal |
É por isso que a reserva de emergência deve ficar em Tesouro Selic e não em IPCA+ longo. Não é preferência de estilo — é que um pode cair 15% na hora em que você mais precisa dele, e o outro não. A lógica está detalhada em quanto guardar na reserva de emergência.
Exemplo: os dois caminhos do Márcio
Márcio, 38 anos, Salvador. Aplicou R$ 20.000 em Tesouro IPCA+ 2040 a IPCA + 6,4% ao ano.
Seis meses depois, a expectativa de juros longos sobe e o mesmo título passa a ser emitido a IPCA + 7,1%. O extrato dele mostra R$ 18.400 — R$ 1.600 no vermelho.
Caminho A — ele vende. Recebe R$ 18.400 e o prejuízo de R$ 1.600 vira real. Perdeu dinheiro de verdade.
Caminho B — ele segura até 2040. O extrato volta ao azul quando as taxas cederem, e mesmo que oscile de novo, no vencimento ele recebe exatamente IPCA + 6,4% ao ano sobre o valor aplicado. O R$ 18.400 nunca foi uma perda — foi uma cotação de venda antecipada que ele escolheu não aceitar.
E existe um caminho C, que quase ninguém enxerga: com o título mais barato, novos aportes compram a 7,1%. Para quem ainda está acumulando, taxa alta é oportunidade, não problema.
Quando o vermelho é real
Nem todo prejuízo na tela é ilusão. Ele vira real quando:
- Você precisa do dinheiro antes do vencimento. Aí não há escolha: vende no preço do dia.
- Você comprou prazo longo com objetivo curto. Guardar em IPCA+ 2045 dinheiro que você vai usar em três anos é erro de casamento de prazos, não de mercado.
- Você vende no pânico. É a forma mais cara de aprender essa lição, e a mais comum.
- Você não considerou imposto e taxa. IR regressivo de 22,5% a 15% conforme o prazo, mais a taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano sobre o que exceder R$ 10.000 investidos em títulos, reduzem o resultado final.
Como usar a marcação a seu favor
Existe uma estratégia legítima aqui, e ela não envolve adivinhar nada.
Quando você compra prefixado ou IPCA+ em momento de juro alto e o juro depois cai, o preço do seu título sobe. Vender nesse momento entrega um ganho maior do que carregar até o fim.
Isso é o que se chama de ganho de capital em renda fixa. É real e acontece com frequência em ciclos de queda de juros — como o que o Brasil vive desde março de 2026, com a Selic saindo de 15% e chegando a 14,00% em agosto.
Três avisos honestos, porém:
- Depende de o juro cair depois da sua compra. Ninguém sabe se vai. Se subir, acontece o oposto.
- Só faz sentido com prazo longo. Título curto quase não se move.
- Não deve ser o plano principal. Trate como bônus eventual de uma carteira montada para carregar até o vencimento, não como estratégia central. Quem monta a tese inteira em cima disso está fazendo aposta direcional de juros — o que é outra coisa, com outro risco.
O raciocínio completo sobre prefixado em ciclo de queda está em Tesouro Prefixado vale a pena com a Selic em queda.
Quando isso não se aplica
- Tesouro Selic praticamente não sofre marcação. Pode haver pequena oscilação em dias de estresse, geralmente fração de 1%. Para reserva, é isso que você quer — veja Tesouro Selic para iniciante absoluto.
- CDB, LCI e LCA de banco não são marcados a mercado para o investidor de varejo. Se tiverem liquidez diária, você resgata pelo valor acumulado. Se forem no vencimento, você espera. O extrato não fica vermelho — mas isso não significa que sejam melhores, e sim que a oscilação está escondida.
- Fundos de renda fixa marcam a mercado diariamente na cota. Se você tem fundo com títulos longos, a queda aparece na cota mesmo sem você mexer em nada. Comparação em fundos de renda fixa vs Tesouro Direto.
- Previdência privada também marca. Muita gente descobre isso só no primeiro susto.
- Se o seu horizonte é o vencimento e o dinheiro não faz falta, você pode simplesmente não abrir o extrato todo dia. É uma estratégia legítima e subestimada.
Em resumo
Marcação a mercado é o preço que o seu título valeria se você vendesse hoje, e ele oscila porque juro de mercado e preço de título andam em direções opostas. Prazo longo oscila muito, Tesouro Selic quase não oscila. Se você levar o título até o vencimento, recebe exatamente a taxa contratada e o vermelho do meio do caminho nunca existiu de verdade. O prejuízo só se torna real quando você vende antes — por necessidade ou por susto. Por isso o casamento entre prazo do título e prazo do objetivo é a decisão que mais importa aqui.
Próxima leitura
- Tesouro IPCA+ vale a pena no longo prazo — quando o título indexado à inflação faz sentido na carteira.
- Reserva de emergência: quanto guardar — por que ela nunca deve ficar em título longo.
Este conteúdo é educacional e não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional certificado (CNPI, CPA) antes de decidir.